sábado, 16 de fevereiro de 2013

Ela não tem que levar com isto. Ela não tem que continuar a ser o bobo da corte. Engoliu demasiados sapos, fez ouvidos moucos ao que ouvia e sorriu quando a vontade era de explodir. Tentou ser a pessoa que queriam que fosse, tentou conciliar as coisas sem nunca perder o nível, e sempre conseguiu manter-se no seu pedestal. Só os olhos, não enganavam!
A postura era perfeita, os gestos eram controlados e a moral, por mais que tirasse férias algumas vezes, deixava de fazer sentido porque tinha sempre razão. Mas e depois? Continuavam a exigir que fosse uma princesa! Continuavam a querer que aquela figura pacífica e suave se eternizasse. Mais do que isso, continuavam a querer que fechasse os olhos.
Fechou-os. Ouvia só a banda passar. E cerrava os lábios quando a música era (ainda mais) desafinada. Ela foi perfeita! Como uma princesa! Queriam que o rosto dela se mantivesse assim, bonito, bem disposto e sempre com um sorriso. Queriam que calasse por meras questões de ética. E, pior, queriam que acreditasse em tudo o que lhe juravam ser verdade.
Ela fazia de conta, sempre teve essa magnífica capacidade de fazer de conta que sim, que acreditava, que tudo estava bem e que nada lhe poderia tirar o sono. Fê-lo vezes sem conta, todas as vezes em que tal lhe foi pedido.
Mas lá dentro, não lá no fundo, sentia tudo. Sentia cada picada, cada palavra, cada gesto e cada mentira. Sentia todos os olhares, uns mais indiscretos que outros, sentia toda a "euforia" à sua volta e sentia que se anulava, continuadamente.
Entre as suas paredes, ficava atónita a olhar o nada. E, pouco depois, explodia. Dizia tudo, gritava, chorava, esperneava e deitava-se exausta. As olheiras tornavam-se mais carregadas a cada dia, o olhar mais triste e a alma, essa, mais cansada. Lutava contra si, era ridículo. Sabia que estava certa, sabia que a razão estava do seu lado e tinha a perfeita consciência de que lhe tentavam atirar areia para os olhos, sempre que podiam. Não é burra e muito menos, cega. Ela sabia o que se passava, sabia de cada passo, cada detalhe. Sabia-o pela calada, sem que ninguém percebesse. E fazia o seu papel, sempre que solicitado. Tinha poucas erupções, e as que tinha eram sempre "atacadas" a tempo de não fazerem qualquer estrago.
Hoje, cansou-se. Hoje, sabe que terá que ser ela a pôr os pontos nos i's. Ninguém o vai fazer por ela, como pensou. Ninguém se mostrou disposto a tentar o que quer que seja! Ela acreditou que sim, mas viu que a vontade do outro lado era nula. Será ela a impôr-se, será ela a colocar o ponto final nesta farsa. Não tem medo, nem se mostra insegura. Ela quer só libertar-se de tudo o que acumulou, de toda a raiva que foi interiorizando, quer só explodir e, finalmente, atirar cada sapo aos seus focinhos. Aí sim, poderá voltar a dormir tranquila. E, aí sim, subirá de novo ao seu pedestal.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Foi então que percebeu! Já não estava nas mãos dela, se calhar, nunca esteve. E ela sempre acreditou que podia controlar tudo. Mas não podia, e o resultado estava à vista! Triste desfecho, os olhos carregados de lágrimas e a sofreguidão com que respirava traçavam o pamorama depois daquela noite. Tinha perdido, sentia-se inútil e, por que não, o bôbo da corte?! De facto, a raiva apoderou-se dela, o sangue corria com uma intensidade nunca antes vista, mas o olhar, esse, estava triste e desfeito. Pouco ou nada poderia, agora, salvá-la daquele turbilhão de emoções. Ela sabia que não havia nada a fazer.Mas, mesmo assim, gostava que tivessem tentado!